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A Memória Religiosa e a Urbanização do Rio de Janeiro
A abertura da Avenida Presidente Vargas no Rio de Janeiro não apenas transformou a paisagem urbana, mas também resultou na demolição de importantes espaços religiosos que faziam parte da história da cidade. Entre as igrejas atingidas estavam a Igreja de São Pedro dos Clérigos e a Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus do Calvário, que, embora tenham sido demolidas, permanecem cercadas de significados e valores históricos.
O Impacto da Urbanização no Patrimônio Histórico
A construção da Avenida Presidente Vargas foi um marco na urbanização do Rio de Janeiro, mas trouxe à tona a tensão entre a preservação do patrimônio histórico e a necessidade de modernização. A Igreja de São Pedro dos Clérigos, tombada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, era um exemplo notável da arquitetura religiosa do século XVIII, com sua planta curvilínea e rica ornamentação em talha. A demolição de templos como este representa não apenas a perda de estruturas físicas, mas também a diluição de narrativas culturais e religiosas que moldaram a cidade.
A Singularidade dos Templos
A distinção entre as igrejas demolidas é crucial para entender a singularidade de cada uma delas. Enquanto São Pedro dos Clérigos e Bom Jesus do Calvário foram oficialmente tombados, Nossa Senhora da Conceição e São Domingos não passaram pelo mesmo processo administrativo de cancelamento de tombamento. Essa diferença não é apenas uma questão burocrática, mas reflete a valorização diferenciada que o Estado conferiu a cada templo e suas respectivas histórias.
A Contradição da Preservação
O paradoxo se intensifica quando se considera que o mesmo governo que implementou políticas de preservação do patrimônio estava também permitindo a demolição de bens considerados de valor histórico. O Decreto-Lei nº 25, de 1937, não facilitava a remoção da proteção dada ao patrimônio, mas o Decreto-Lei nº 3.866, de 1941, estabeleceu uma brecha jurídica que permitiu ao presidente da República cancelar tombamentos por razões de interesse público.
A Nova Norma e Seus Efeitos
A terminologia utilizada no Decreto-Lei nº 3.866 é especialmente significativa. O legislador não usou a expressão "destombamento", mas sim "cancelamento do tombamento", o que sugere que os bens continuariam a ser reconhecidos como patrimônios de valor histórico, mesmo após a remoção de sua proteção legal. Isso implica que a demolição não era um fim em si, mas parte de um processo que incluía a reconstrução dos templos em novos locais.
Demolições e Reconstruções
Em 1942, o prefeito Henrique Dodsworth formalizou um pedido ao presidente Vargas para cancelar o tombamento de São Pedro e Bom Jesus. Ele enfatizou que a demolição deveria ser acompanhada pela reconstrução dos templos, demonstrando uma intenção de preservar a memória religiosa da cidade, mesmo diante das mudanças urbanas. Essa abordagem ressalta a complexidade do processo de urbanização, que não deve ser visto apenas como destruição, mas também como uma oportunidade de reimaginar a cultura e a história.
O Papel do Patrimônio
Rodrigo Melo Franco de Andrade, diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, buscou assegurar que as demolições não resultassem em um apagamento total da memória cultural. A intenção era que as intervenções respeitassem a importância dos templos e que a reconstrução fosse realizada com cuidado e atenção. Esse cuidado é essencial para reconhecer a importância da memória coletiva e do patrimônio cultural na formação da identidade urbana.
Conclusão
A história das demolições e reconstruções de igrejas no Rio de Janeiro ilustra a tensão entre modernização e preservação patrimonial. Embora as Igrejas de São Pedro dos Clérigos e Bom Jesus do Calvário tenham sido demolidas, suas histórias e a importância que representavam para a cultura carioca não podem ser esquecidas. A reflexão sobre esses eventos nos convida a pensar sobre como podemos equilibrar a necessidade de desenvolvimento urbano com a preservação da nossa herança cultural.